Tuesday, November 10, 2009

OS INTERNACIONALISTAS A SOLDO SÓ QUEREM DIREITOS PARA OS SEUS PROTEGIDOS CÁ, LÁ CALAVAM E CALAM...













Kalashnikov - 90 anos
Acordar durante 3 anos sob a mira de uma AK-47
por António Pina, da Agência LusaOntem


Por ter "colaborado com o inimigo", João Quental foi encarcerado em Moçambique durante três anos e dois meses, condenado à morte por fuzilamento sem julgamento e espancado repetidamente por guardas que empunhavam, dia e noite, "Kalashnikov's".

Antigo piloto da Força Aérea Portuguesa, João Quental conhece bem as muitas faces da arma que mais gente mata no mundo. Apanhado no turbilhão da descolonização, das revoluções marxistas-leninistas dos novos regimes africanos e do surgimento dos movimentos ditos rebeldes, Quental colocou, na década de 1980, a sua experiência de piloto adquirida na guerra colonial ao serviço da Renamo.

"Fi-lo em nome de uma causa. Nunca em proveito próprio nem por lealdade ao movimento, aos sul-africanos nem a político qualquer. A causa era a liberdade, era a propriedade privada e os bens de milhões de pessoas que a Frelimo tinha usurpado, e por isso paguei um preço altíssimo e vivo hoje em dificuldades", confessa o ex-piloto, actualmente com 73 anos.

Quental foi preso em Dezembro de 1984, quando aterrou em Moçambique transportando materiais de construção para um sul-africano que estava a construir um hotel.

Na altura, já não voava para a Gorongosa ao serviço da Renamo. Para trás, tinham ficado os tempos em que aterrava e descolava na calada da noite de bases rebeldes, em pistas de terra batida no meio do arvoredo e iluminadas por uma mera fogueira.

Mas o regime não o esquecera, e à primeira oportunidade encarcerou-o. Sob a mira de AKs-47 foi detido e nos 1155 dias seguintes adormeceu e acordou, em condições sub-humanas, sob a ameaça da arma de eleição dos militares, polícias e guardas prisionais de Moçambique.

"Foi também com as coronhas de AK's-47 que me partiram todos os dentes que tinha na boca num dia em que sete guardas, enfurecidos pela fuga de um preso e embriagados, entraram pela minha cela adentro e me agrediram com tudo o que tinham à mão: com as espingardas, correntes de bicicleta e paus", conta.

Quental diz que o então cônsul de Portugal em Maputo "ficou completamente chocado" quando viu o estado em que os guardas o tinham deixado, 48 horas depois da brutal agressão.

"Pediu-me para levantar a camisa para ver as marcas que tinha no corpo, mas eu não conseguia levantar os braços de tão dorido que estava. Foi ele quem me levantou a camisa e os hematomas eram de tal forma graves que ficou em choque", recorda.

Numa das alas da prisão da Machava (onde, lembra, estavam detidos os "políticos"), permaneceu, sob a mira de incontáveis AK's, a maior parte dos três anos e dois meses de cárcere, condenado à morte por fuzilamento por "ordem de serviço" sem nunca ter sido presente a um tribunal.

"Uma das experiências mais traumáticas para quem sabe que vai ser fuzilado é ouvir, em certos dias, serem chamados, um a um, outros prisioneiros no dia das suas execuções. Nunca mais apareciam e todos sabíamos o que lhes tinha acontecido. Tinham sido fuzilados por um pelotão que, logicamente, usava Kalashnikovs", relata o ex-piloto.

Quental acabaria por ser libertado em 1988, entregue à embaixada de Portugal e repatriado. Mas, 21 anos depois, ainda dorme mal. Acorda amiúde, a meio da noite, a "olhar de frente" o cano frio de uma "Kalash".

"Não tenho, nem nunca tive medo. O que sinto é revolta por nunca ter sido feita justiça. Nem a mim, nem a tantos outros, sujeitos a tanta indignidade, mortos, apenas por terem resistido", conclui.

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