30 Agosto 2009 - 00h30
A Análise
Portugal 'à deriva'. Quem nos acode?
Esta democracia não resiste a esta economia. Sem resposta eficaz para o presente afundamento económico, a actual democracia acabará por ser substituída.
Vivemos, em geral, sob a ‘ditadura’ do curto prazo. Também nos domínios económico, financeiro e social, estamos circunscritos ao ‘trimestre’. O método que se usa é fácil e bem acolhido porque consente todas as interpretações e, por isso, a todos serve. Mas tem um grave efeito redutor porque os portugueses ficam sem saber como estão e para onde os levam. Têm hoje uma visão que não passa do dia seguinte.
Os consequentes custos políticos são enormes, porque se cuida sempre e só da conjuntura, omite-se as análises e as indispensáveis soluções estruturais.
Trata-se de uma prática que explica, em grande parte, o afundamento incessante do nosso País. Com ela não ocorrerá qualquer mudança, de fundo e indispensável, porque as verdadeiras soluções são sempre desconhecidas. Temos os factos a demonstrá-lo: entram e saem governos, partidos e políticos, anos sucedem-se a outros anos, mas o agravamento da economia, das finanças e do ‘social’ é uma constante.
Baseados nestas análises, meramente conjunturais e com falta de entendimento das tendências da globalização, há os que pensam num destino português sempre ‘pendurado’ em alguém (África, Índia, Brasil e União Europeia): e assim se escusam de quaisquer preocupações, embora nunca identifiquem quem e por que estará disposto a ‘carregar’ connosco, já em 2015-2020.
"O optimismo é hoje uma pura mistificação" (como bem sublinha Vasco Pulido Valente) mas, mesmo assim, ainda há ‘optimistas’ por aí! Do outro lado estão os chamados ‘pessimistas’: aqueles que tentam ver mais longe e mais fundo, defendem a dignidade do País, exigem responsabilidades e não crêem que tenhamos o direito de transformá-lo no mendigo da Europa.
Os nossos graves e visíveis desequilíbrios financeiros com inevitáveis efeitos sociais só podem ser enfrentados pela drástica redução das despesas e/ou pelo rápido crescimento da economia.
O ataque às despesas públicas é, de há muito, um completo fracasso, tentado por todos os governos. Estes saem e tudo fica pior.
Duas razões o explicam: a primeira é a quase estagnação da nossa economia (0,8% anuais, entre 2000 e 2008); a segunda é a natureza das despesas que mais pesam nas contas públicas e que são as do ‘pessoal’ e as das ‘prestações sociais’. Muito rígidas, correspondiam já a cerca de 78% da despesa primária (total menos juros), em 2008.
Quem é beneficiário destes pagamentos?
São 700 000 funcionários, cerca de 3 400 000 reformados, perto de 350 000 titulares do RSI, uns 300 000 desempregados e outros centos de milhares de subsidiados diversos, num total superior a 6 milhões de indivíduos.
Isto é: temos estes 60 a 70% de eleitores inscritos, que são militantes atentos e empenhados do ‘Partido do Estado’!
Quem vai ‘tocar-lhes’, num prazo que ainda possa ser útil?
É muito pequeno o mercado interno português e, por isso, só através das exportações e da substituição de importações poderemos registar crescimentos significativos da economia e do emprego. Ocorre que o contributo das exportações para a nossa economia tem sido muito pequeno: 32-33% do PIB, em média, desde há muitos anos.
Temos, portanto, uma decisiva prioridade: alargar, suficiente, urgente e competitivamente, o nosso tecido produtivo.
Não exportaremos muito mais desde que não produzamos competitivamente.
Porque só agora se dá, preocupadamente, por isso?
Com o escudo, disfarçámos facilmente esta nossa tradicional debilidade porque, quando se perdia, perigosamente, competitividade, desvalorizava-se a moeda e, em alguns meses, restabelecia-se um certo equilíbrio.
Agora, com o euro, nada disso é possível.
O quadro é este: competimos mal e exportamos pouco; não temos moeda própria e não podemos corrigir facilmente a situação; a economia cresce devagar, o desemprego sobe, os défices externos são dos mais altos do mundo e o endividamento é insustentável.
Numa palavra: estamos ‘encurralados’.
O panorama dos últimos dez anos é muito sombrio e, sobre ele, os partidos não se pronunciam, clara e autonomamente, não analisam com rigor os factos e não alvitram quaisquer soluções à altura das necessidades.
Não se compreende este alheamento, mas é um facto.
E, porque estamos no domínio da política, tem de perguntar-se o que tem o Estado a fazer, sendo certo que há matérias em que só ele pode e deve fazer.
Duas coisas, a meu ver: primeiro, averiguar com cuidado por que há investidores interessados na Hungria, na Polónia, na República Checa, na Eslovénia ou na Eslováquia, e não querem vir para Portugal, havendo mesmo os que daqui se ‘deslocalizam’; segundo, com base nessa análise, apresentar ao País uma proposta das reformas necessárias para criar vantagens comparativas nas opções respeitantes aos investimentos para as exportações/substituição de importações.
É certo haver áreas públicas relevantes e que pesam nas opções dos investidores: leis do trabalho, impostos e taxas, tribunais, especialização da mão-de-obra, burocracia, nível da corrupção, mercado do arrendamento, custos energéticos e das telecomunicações, secretismo dos PIN, benefícios atribuídos casuisticamente e sem controlo, etc.
Hoje, porém, ninguém sabe em que medida, de modo seguro, sistemático e inequívoco, se foge, cada vez mais, de investir em Portugal para se investir no Leste europeu.
Podemos todos ‘achar’ que sabemos – como é usual entre nós! – mas sem as indispensáveis certezas que fundamentem políticas eficazes.
Vale a pena recordar que o melhor período da nossa economia, no século passado, se deveu, em especial, à entrada para a EFTA e ao estatuto privilegiado contido no Anexo G. As vantagens comparativas então conseguidas atraíram para Portugal numerosas e decisivas indústrias, hoje em incontida debandada.
Em função das novas circunstâncias, impõe-se-nos agora criar vantagens comparativas, afeiçoadas às realidades internacionais presentes.
Se o eleitorado aprovasse as propostas apresentadas para o efeito, qualquer Governo teria legitimidade democrática para executá-las.
Se as rejeitasse, assumiria democraticamente a responsabilidade pelas consequências do marasmo económico, isto é, o elevado desemprego, os baixos salários, as prestações sociais exíguas, a pobreza crescente, as desigualdades, o endividamento e o temor do futuro.
Na verdade, é legítimo que um povo opte pela pobreza, desde que compreenda bem o sentido e as consequências do que vota.
Não como nos encontramos hoje: com uma caricatura de democracia, baseada no engano das gentes e na estreiteza das competências, os portugueses arrastam-se ‘às cegas’ para um desastre, que não é desejado, nem pressentido.
É que não basta aos governos realizar algumas coisas positivas, o que com todos sempre acontece: porque, se faltar ‘a’ obra essencial, tudo será em vão.
Há momentos históricos dependentes, decisivamente, de um só ‘pormenor’
O Estado Novo naufragou por falta de solução para as guerras coloniais; sem resposta eficaz para o presente afundamento económico, a actual democracia mergulhará o nosso País numa confusão financeira e social, de efeitos dificilmente previsíveis, e acabará por ser substituída. Provavelmente, entre 2015 e 2020.
As eleições que estão à vista serão decisivas, neste contexto de acelerada decadência: o ataque frontal às fragilidades da economia é hoje ‘o’ verdadeiro problema de Portugal, o que importa relevar vivamente.
Porque, se não houver uma proposta política que o contemple, nem a identificação prévia da gente, competente e séria, que irá concretizá-la, não teremos cura que chegue para a questão económica.
Mostram-se o PS e o PSD à altura destas necessidades prementes do País?
Se forem o mesmo PS, que leva agora onze em catorze anos de Governo, e o mesmo PSD, que soma três, as minhas preocupações atingirão o grau do ‘pavor’.
Pede-se-lhes, por isso, três coisas apenas: primeira, um pequeno programa, claro e curto, e não, como usualmente, uma ‘apólice’ de seguro para enganar os eleitores, que contemple só as medidas indispensáveis para atingir os objectivos económicos enunciados; segundo, a indicação dos nomes previstos para as Finanças, a Economia, a Justiça, a Educação e a Segurança Social, garantes da sua execução, já que os ‘partidos’, em si mesmos, não gozam da confiança da maioria dos portugueses; e, terceiro, que restaurem a ética na política.
Só assim me parece que haverá condições para iniciar um processo de reconstrução, porque legitimado pelo voto esclarecido e responsável de uma maioria.
Qualquer maioria?
Absoluta de um partido, não: os estragos irreparáveis já produzidos em Portugal, nestes quatro anos, dos quais Sócrates nem sequer tem consciência, constituem uma duríssima e inesquecível lição.
Maioria relativa, sim, se apoiada no tal programa, em tais personalidades e em nome de valores éticos.
O que verdadeiramente espero?
Que o PS e o PSD se compenetrem de que vivemos num tempo histórico, muito arriscado, incerto e ameaçador: se falharem, mais uma vez em quase duas décadas, acabará por ser varrida a partidocracia que ergueram e comandam em Portugal.
Medina Carreira, Ex-ministro das Finanças
MAS OS GAJOS DAS "DISTRIBUIÇÕES" E DAS "NACIONALIZAÇÕES" VIRTUOSAS DOS POBRES DOS OUTROS ACHAM QUE IR AUMENTANDO OS IMPOSTOS CHEGA...
MAS JULGO QUE NÃO BASTA SÓ A "PRODUÇÃO".O PRÓPRIO SISTEMA REPRESENTATIVO FOI CRESCENDO DE FORMA ABUSIVA E É ELE PRÓPRIO UM "CONSUMIDOR" DE RECURSOS EM ESCALA NÃO COMPARÁVEL COM O ANTERIOR REGIME.TODOS A MAMAR NA TETA NÃO DÁ...
Sunday, August 30, 2009
QUE SE EXTINGA O ESTADO SOCIAL DO TAMANHO DO MUNDO
Augusto Santos Silva: «Nas próximas eleições o que está em causa é o futuro do Estado Social».
ESTA RAPAZIADA EX-QUALQUER COISINHA LÁ NÃO MUITO BOA E AINDA ADEPTOS DA TÉCNICA DO SALAME FICARAM COM MAIS OLHOS QUE BARRIGA.PRIMEIROS ERAM OS TRABALHADORES "INDÍGENAS" O OBJECTO(FALSO) DAS SUAS LUTAS.AGORA É TODO O MUNDO.ASSIM SENDO ACHO MUITO BEM QUE SE EXTINGA O ESTADO SOCIAL.UM BANHO DE HUMILDADE A QUEM SE ACHA COM DIREITO A TUDO PARA SI E PARA O MUNDO SEM PERGUNTAR OU SE PREOCUPAR COM QUEM PAGA SÓ LHE FARÁ BEM... E AFINARÁ O SEU VOTO FUTURO...
ESTA RAPAZIADA EX-QUALQUER COISINHA LÁ NÃO MUITO BOA E AINDA ADEPTOS DA TÉCNICA DO SALAME FICARAM COM MAIS OLHOS QUE BARRIGA.PRIMEIROS ERAM OS TRABALHADORES "INDÍGENAS" O OBJECTO(FALSO) DAS SUAS LUTAS.AGORA É TODO O MUNDO.ASSIM SENDO ACHO MUITO BEM QUE SE EXTINGA O ESTADO SOCIAL.UM BANHO DE HUMILDADE A QUEM SE ACHA COM DIREITO A TUDO PARA SI E PARA O MUNDO SEM PERGUNTAR OU SE PREOCUPAR COM QUEM PAGA SÓ LHE FARÁ BEM... E AFINARÁ O SEU VOTO FUTURO...
OS GAJOS SÓ SABEM COLOCAR-NOS O PESCOÇO NO CÊPO...
Tiros no escuro
"Devemos receber detidos de Guantánamo sobre os quais não pende qualquer acusação? É indiferente perguntar. E é indiferente responder: em Portugal, nada se discute, tirando as misérias habituais da paróquia.
Só isso explica que dois cidadãos sírios já cá estejam instalados perante a anestesia geral. Porque são rapazes cordatos e inocentes? O governo diz que sim. Eu não duvido. Mas também não duvido, ao contrário do que o governo esconde ou ignora, que existem dezenas de antigos rapazes ‘cordatos’ e ‘inocentes’ que, uma vez libertados, regressaram ou iniciaram actividades terroristas. Citar Abdul Ghulam Rasoul (um dos líderes talibãs no Afeganistão de hoje) ou Said Ali al-Shihri (um dos líderes da al-Qaeda no Iémen de hoje) é apenas referir os casos de ‘inocência’ mais célebres. Receber prisioneiros de Guantánamo é um tiro no escuro. Que pode fazer ricochete."
João Pereira Coutinho
"Devemos receber detidos de Guantánamo sobre os quais não pende qualquer acusação? É indiferente perguntar. E é indiferente responder: em Portugal, nada se discute, tirando as misérias habituais da paróquia.
Só isso explica que dois cidadãos sírios já cá estejam instalados perante a anestesia geral. Porque são rapazes cordatos e inocentes? O governo diz que sim. Eu não duvido. Mas também não duvido, ao contrário do que o governo esconde ou ignora, que existem dezenas de antigos rapazes ‘cordatos’ e ‘inocentes’ que, uma vez libertados, regressaram ou iniciaram actividades terroristas. Citar Abdul Ghulam Rasoul (um dos líderes talibãs no Afeganistão de hoje) ou Said Ali al-Shihri (um dos líderes da al-Qaeda no Iémen de hoje) é apenas referir os casos de ‘inocência’ mais célebres. Receber prisioneiros de Guantánamo é um tiro no escuro. Que pode fazer ricochete."
João Pereira Coutinho
OLHEM QUEM É AMIGO DO SOARES...
Protestar en Venezuela será delito
MAYE PRIMERA
La fiscalía procesará a los ciudadanos que se manifiesten contra el Gobierno de Chávez
MAYE PRIMERA
La fiscalía procesará a los ciudadanos que se manifiesten contra el Gobierno de Chávez
O OVO DE COLOMBO
"Prostituição deve ser legal"
Alexandra Oliveira, investigadora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, doutorou-se com uma tese sobre a prostituição de rua no Porto, e defende que esta actividade deve ser regulada como qualquer outra profissão.
“A prostituição é uma escolha”
O ESTADO COBRA IMPOSTOS E FISCALIZA A TRANSMISSÃO DE DOENÇAS.GANHAM TODOS
Alexandra Oliveira, investigadora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, doutorou-se com uma tese sobre a prostituição de rua no Porto, e defende que esta actividade deve ser regulada como qualquer outra profissão.
“A prostituição é uma escolha”
O ESTADO COBRA IMPOSTOS E FISCALIZA A TRANSMISSÃO DE DOENÇAS.GANHAM TODOS
Saturday, August 29, 2009
A MINISTRA DA MUITA PARRA E POUCA UVA
Gripe A: Portugal é o segundo país europeu com maior incidência de infecções
Portugal é o segundo país europeu com maior incidência de infecções de gripe A (H1N1), com 20,9 casos por cada cem mil habitantes, a seguir ao Reino Unido, com 21,4 casos por cada cem mil habitantes.
SEMPRE DETECTEI FACILITISMOS EXAGERADOS.CONSELHOS INADEQUADOS, COMO AQUELA DE "NÃO HAVER INCONVENIENTE DE VIAJAR PARA O MÉXICO NO PICO DA CRISE...
PARECE QUE O QUE INTERESSAVA ERA QUE TODOS FICASSEM INFECTADOS...
Portugal é o segundo país europeu com maior incidência de infecções de gripe A (H1N1), com 20,9 casos por cada cem mil habitantes, a seguir ao Reino Unido, com 21,4 casos por cada cem mil habitantes.
SEMPRE DETECTEI FACILITISMOS EXAGERADOS.CONSELHOS INADEQUADOS, COMO AQUELA DE "NÃO HAVER INCONVENIENTE DE VIAJAR PARA O MÉXICO NO PICO DA CRISE...
PARECE QUE O QUE INTERESSAVA ERA QUE TODOS FICASSEM INFECTADOS...
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A TÁCTICA DE TODOS AO MOLHO E FÉ EM DEUS...
JPP DÁ UMA COÇA AO MISSIONÁRIO LOUÇÃ
09:13 (JPP)
COISAS DA SÁBADO: MALAGRIDA ENCARNADO
O precedente português (embora fosse italiano) de Louçã é o padre jesuíta Gabriel Malagrida. O jesuíta tinha fama de santo e conheceu altos e baixos na sua carreira de pregador entre Portugal e o Brasil, entre um rei e outro. Só quando chegou ao Marquês é que tudo acabou mal, na fogueira. Malagrida notabilizou-se por um texto que escreveu sobre o terramoto de 1755, em resposta a um panfleto explicativo das causa naturais do fenómeno, encomendado pelo Marquês que era homem das Luzes. Anote-se desde já, que não foi esse texto que motivou a sua execução, apenas o seu desterro, mas sim outros escritos considerados de “lesa-majestade“.
Hoje, um Malagrida moderno teria muitos votos pelas suas pregações, se em vez do terramoto, se tratasse de “explicar” a “crise”. E, em vez do cadafalso, teria o prime-time da televisão, onde os jornalistas babados pela sua oratória lhe dão o papel ímpar de ser o julgador moral do PS e do PSD. Ele não está lá no ecrã para dizer o que pretende o Bloco de Esquerda, mas sim para, sempre com os mesmos trejeitos, flamejar de ameaças os infames que causaram o tremor de terra. Por trejeitos refiro-me a capacidade histriónica de Louça de conseguir não só falar como sublinhar com um traço facial e uma inflexão de voz, as sua próprias palavras, não vá a gente não as perceber.
Também Malagrida apelava a ideias simples, embora erradas, a fés que não se questionam, a medos comuns, aos traumatizados pelo desastre e aos crédulos de sempre, aos zangados pela vida e aos que esperam por milagres, acima de tudo aos que procuram em tempos difíceis uma ilusão a que se agarrar, porque o real é demasiado pobre e fraco e mau. Malagrida propunha-lhes práticas salvíficas e imediatas, procissões e devoções. O mundo de Malagrida era simples e os maus e os bons estavam separados por um abismo fundo. Os maus mandavam na terra e os bons sabiam como se ia para o Céu. Os maus propunham “causas naturais” para os desastres para iludir a sua responsabilidade, os bons acreditavam que um Deus feroz tinha que ser aplacado na sua vingança, pela restituição das coisas mundanas a uma “ordem natural” que tinha sido rompida pela incredulidade. Para Malagrida, as causas do terramoto eram divinas:
Sabe Lisboa, que os únicos destruidores de tantas casas e palácios, assoladores de tantos templos e conventos, homicidas de tantos habitantes, os incêndios devoradores de tantos tesouros não são cometas, não são estrelas, não são vapores ou exalações, não são fenómenos, não são contingências ou causas naturais, mas são unicamente os nossos intoleráveis pecados.
O discurso de Louçã tem a mesma lógica do de Malagrida. O mal, os “intoleráveis pecados”, é uma coisa a que ele chama de “ganância” dos ricos e poderosos, ou seja, o capitalismo, embora ele prefira a classificação moral à política, porque esta última podia ser muito reveladora na sua genealogia. Para restaurar a Jerusalém divina, é necessário que se entre no reino da “Justiça”, ou seja, da igualdade, da solidariedade, onde todos os homens são felizes. Quem é que ousa contestar a “justiça”? Só os maus. Quem é que ousa questionar a ira divina? Só os ímpios.
A experiência histórica tem precedentes para estas palavras de Louça. Elas só são novas porque a memória é muito curta. É que se as tomarmos como elas são, desnudadas da sua ganga retórica, trata-se de um discurso de extrema-esquerda assente numa visão comunista da sociedade, onde há um brutal intervalo entre a “justiça” exigida e a “justiça” realizada. Esse intervalo é o de uma sociedade totalitária, de uma ditadura do Bem sobre o Mal. Malagrida perceberia muito bem este mundo.
COISAS DA SÁBADO: MALAGRIDA ENCARNADO
O precedente português (embora fosse italiano) de Louçã é o padre jesuíta Gabriel Malagrida. O jesuíta tinha fama de santo e conheceu altos e baixos na sua carreira de pregador entre Portugal e o Brasil, entre um rei e outro. Só quando chegou ao Marquês é que tudo acabou mal, na fogueira. Malagrida notabilizou-se por um texto que escreveu sobre o terramoto de 1755, em resposta a um panfleto explicativo das causa naturais do fenómeno, encomendado pelo Marquês que era homem das Luzes. Anote-se desde já, que não foi esse texto que motivou a sua execução, apenas o seu desterro, mas sim outros escritos considerados de “lesa-majestade“.
Hoje, um Malagrida moderno teria muitos votos pelas suas pregações, se em vez do terramoto, se tratasse de “explicar” a “crise”. E, em vez do cadafalso, teria o prime-time da televisão, onde os jornalistas babados pela sua oratória lhe dão o papel ímpar de ser o julgador moral do PS e do PSD. Ele não está lá no ecrã para dizer o que pretende o Bloco de Esquerda, mas sim para, sempre com os mesmos trejeitos, flamejar de ameaças os infames que causaram o tremor de terra. Por trejeitos refiro-me a capacidade histriónica de Louça de conseguir não só falar como sublinhar com um traço facial e uma inflexão de voz, as sua próprias palavras, não vá a gente não as perceber.
Também Malagrida apelava a ideias simples, embora erradas, a fés que não se questionam, a medos comuns, aos traumatizados pelo desastre e aos crédulos de sempre, aos zangados pela vida e aos que esperam por milagres, acima de tudo aos que procuram em tempos difíceis uma ilusão a que se agarrar, porque o real é demasiado pobre e fraco e mau. Malagrida propunha-lhes práticas salvíficas e imediatas, procissões e devoções. O mundo de Malagrida era simples e os maus e os bons estavam separados por um abismo fundo. Os maus mandavam na terra e os bons sabiam como se ia para o Céu. Os maus propunham “causas naturais” para os desastres para iludir a sua responsabilidade, os bons acreditavam que um Deus feroz tinha que ser aplacado na sua vingança, pela restituição das coisas mundanas a uma “ordem natural” que tinha sido rompida pela incredulidade. Para Malagrida, as causas do terramoto eram divinas:
Sabe Lisboa, que os únicos destruidores de tantas casas e palácios, assoladores de tantos templos e conventos, homicidas de tantos habitantes, os incêndios devoradores de tantos tesouros não são cometas, não são estrelas, não são vapores ou exalações, não são fenómenos, não são contingências ou causas naturais, mas são unicamente os nossos intoleráveis pecados.
O discurso de Louçã tem a mesma lógica do de Malagrida. O mal, os “intoleráveis pecados”, é uma coisa a que ele chama de “ganância” dos ricos e poderosos, ou seja, o capitalismo, embora ele prefira a classificação moral à política, porque esta última podia ser muito reveladora na sua genealogia. Para restaurar a Jerusalém divina, é necessário que se entre no reino da “Justiça”, ou seja, da igualdade, da solidariedade, onde todos os homens são felizes. Quem é que ousa contestar a “justiça”? Só os maus. Quem é que ousa questionar a ira divina? Só os ímpios.
A experiência histórica tem precedentes para estas palavras de Louça. Elas só são novas porque a memória é muito curta. É que se as tomarmos como elas são, desnudadas da sua ganga retórica, trata-se de um discurso de extrema-esquerda assente numa visão comunista da sociedade, onde há um brutal intervalo entre a “justiça” exigida e a “justiça” realizada. Esse intervalo é o de uma sociedade totalitária, de uma ditadura do Bem sobre o Mal. Malagrida perceberia muito bem este mundo.
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